Juliana Shizue Nishio
MODA/FACULDADE SANTA MARCELINA
TGI 2005

ORIGAMI - Sadako e os mil pássaros de papel

AS PEÇAS

ROSA DE HIROSHIMA

Esta primeira peça é para lembrar a rosa do poema de Vinícius de Moraes Rosa de Hiroshima: “... A anti-rosa atômica... sem cor sem perfume... sem rosa sem nada”. Na peça, as folhas são feitas de papel, que são isentas de cheiro. E o que se vê não é uma rosa de verdade, mas uma espécie de peça para o pescoço. Lembrar daquela explosão que emudeceu milhares de vida, um relato diz que uma pessoa que fora atingida pela bomba, o seu rosto fora desfigurado e o que era para ser um rosto só existia algo que parecia ser um nariz, a boca era inexistente naquela feição, com isso a forma desta peça chega a cobrir os lábios de quem vê a certa distância do usuário.

Seu formato remete a um rufo que mantinha a pessoa com a cabeça erguida. Mesmo com os ataques os japoneses lutaram para sobreviver e o orgulho de morrer pelo imperador, mesmo após ter perdido a guerra, reconstruíram sua cidade.

Ela é feita de alumínio, prata e papel. Primeiramente, pensei em fazê-la toda de prata e papel, mas conversando com meus professores de joalheria, me aconselharam a fazer com alumínio, por ser um metal mais leve.

O Casaco de Marx: roupas, memórias, dor. Tradução Tomaz Tadeu da Silva. 2ª edição.  Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 14-15.





CÚPULA DA BOMBA ATÔMICA: DESTRUIÇÃO E PERSISTÊNCIA

A coroa imita a parte superior da Cúpula da Bomba Atômica. As tiras de papel que na parte do rosto continuam retas são para lembrar assim como a coroa a estrutura que resistiu mesmo após ser atingida pela bomba atômica. O restante da tira de papel possui dobras irregulares que remetem à destruição do que estava em torno desta construção, como as casas, objetos, pessoas, animais. A ponta desta tira é vermelha, que significa o sangue, as pessoas e as duas cores que compõem esta tira, a bandeira japonesa. A tira de baixo é de jornal: como um fato que ficou registrado, um jornal aparentemente velho, mas uma história que precisa persistir na mente das pessoas para que nunca mais se repetisse.

Ela é feita de fita de aço, prata, papel, jornal e a parte da cabeça têm um forro de tecido para ficar mais confortável de usá-la.


VAGA-LUMES I E II

O nome vem de um anime (desenho animado japonês) chamado Túmulo dos Vaga-lumes.¹ Há uma cena no filme em que os personagens principais Setsuko e Seita estão brincando com os vaga-lumes num lago, e isso para mim teve uma ligação com as lanternas que são colocadas no rio em homenagem aos mortos (festival Bon  ²). As peças se encontram perto da mão como se fossem ofertar a uma pessoa. Uma das peças possui uma argola que simboliza o ciclo de vida, as lanternas que são encontradas de forma oposta uma da outra, seriam o início e o fim da vida. A mão que está entre elas é a mão que interferiu nesse ciclo de vida, a mão que jogou a bomba atômica.

O material é prata, argola de alumínio, papel origami, pedras tipo swarowisk, fios de aço. As pedras servirão para manter a estrutura das lanternas feitas de papel, que serão pendurados pelo fio de pesca, que sai da pulseira de prata ou de uma chaneira³ de prata.

¹ Grave of the Fireflies (Hotaru no Haka). Direção: Isao Takahata. Japão: Studio Ghibli. 1988. 88 min. son. color.
² realizado no dia 06 de agosto para lembrar as pessoas mortas pela bomba atômica.
³ tubo.


LEUCEMIA

É uma doença que afeta o sangue. Os glóbulos brancos que servem para proteger o corpo contra bactérias, acaba aumentando (os imaturos) e as plaquetas e os glóbulos brancos maduros diminuem, deixando a pessoa com resistência baixa. A peça foi traduzida desta forma. Os glóbulos brancos nos seres humanos são anucleados e procurei uma forma de um origami que lembrasse isso. Estes origamis passariam dentro de um tubo o qual representaria as veias. As peças passam na cabeça, no pescoço, entrecavas, cintura, pulsos, tornozelos, como forma de representar que a corrente sanguínea passa por todo o corpo.

Para a peça, é usado tubo de acrílico de dois tamanhos, prata e origami feito de papel sulfite 75 g.






AMIZADE

A boneca kokeshi¹ e o tsuru dourado foram presentes dos amigos de Sadako. A amizade acaba fortalecendo-a. Por isso os fios de silicone (corrente sangüínea) que tem uma espessura menor dos tubos da peça anterior. Os tubos anteriores eram maiores e com a amizade isso se ameniza. A moldura da peça tem o formato do kanji² que significa “sol”, “dia”. A tradução disso no trabalho é: os dias vividos e os dias restantes de Sadako. Lembra também a forma de uma janela, que seria Sadako olhando pela janela do hospital. O relógio são as horas vividas e restantes dela. A boneca é para simbolizar a boneca entregue a Sadako, a kokeshi.

Os materiais são: placa de acrílico de 3 mm, papel origami, papel canson, papel sulfite, prata, fio de silicone com gliter.

¹boneca feita de madeira cilíndrica e esférica, pintada à mão.
²caractere chinês, ideograma.


ESPERANÇA

A sua forma é para representar o tsuru que Sadako segura no Monumento da Paz às Crianças e os mil tsuru que são ofertados todos os anos por pessoas do mundo todo. Esperança de que fatos trágicos assim não ocorram novamente. Além do simples olhar, a peça lembra também o ventre de uma mulher, como se fosse a esperança de uma nova vida.

O material é prata, alumínio, placa de acrílico, papel origami, fios de aço.




RESUMO DO TGI

Faculdade Santa Marcelina - 2005

Trabalho de Graduação apresentado à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Bacharel em Desenho de Moda com ênfase em Joalheria

TÍTULO: ORIGAMI - Sadako e os mil pássaros de papel

NOTA FINAL : 9.95

O porquê do tema:

Quando tinha seis anos de idade, meu pai chamou a mim e a meus irmãos pra ensinar a fazer o tsuru, que foi a minha primeira tentativa de fazer origami.

Nos trabalhos da faculdade, acabei usando o origami e num deles, no segundo ano da faculdade, descobri a história de Sadako Sasaki.

Neste ano surgiram muitas coincidências com o Trabalho de Graduação: os 100 anos da Teoria da Relatividade de Einstein, da descoberta da fórmula E=mc², os 60 anos da bomba atômica de Hiroshima. Foi muito anunciado na mídia o que aconteceu em Hiroshima, e nos grupos nipônicos também. No meu caso, freqüento a Seicho-no-ie, e neste ano em Ibiúna, o pessoal do seinenkai, falaram sobre a história de Sadako e a cada pessoa presente foi entregue um tsuru.

Sadako Sasaki tinha dois anos de idade quando a primeira bomba atômica caiu sobre Hiroshima, no dia seis de agosto de 1945 (outra coincidência: eu nasci no dia seis de agosto de 1984).

Sadako estava dentro de casa com sua família tomando café da manhã, após a explosão, tudo estava destruído. Seu irmão e sua avó tinham se machucado, mas milagrosamente, Sadako e sua mãe nada sofreram. Foram em direção ao rio Ota, para fugir daquela visão infernal.

Se passaram 10 anos, Sadako cresceu, e parecia ser uma menina saudável. Ela adorava corridas, por isso ela treinava para melhorar mais seu desempenho. Num desses treinos, ela sentiu-se mal, mas não contou pra ninguém. Mas certo dia, ela piorou. Foi levada ao Hospital da Cruz Vermelha e após alguns exames, descobriram que Sadako estava com leucemia (considerada na época, como a Doença da Bomba Atômica).

Sadako via que muitas crianças morriam por causa daquela doença. Ela não queria morrer.

Os amigos de Sadako da classe Bambu foram visitá-la e entregaram-lhe a boneca Kokeshi (boneca com cabeça esférica e corpo cilíndrico de madeira pintada a mão).

Em agosto, alunos da escola secundária de Nagoya entregaram aos pacientes do Hospital da Cruz Vermelha mil tsuru.

Sadako ouviu a lenda dos mil tsuru, que ao se fazer mil deles o seu desejo se tornará real. Então Sadako começa a fazê-los desejando a sua melhora.

Mas infelizmente, ela morreu antes de terminá-los.

Seus amigos da classe Bambu, quiseram fazer algo por ela, formaram um clube para arrecadar dinheiro para a construção de um monumento para Sadako e para as crianças que morreram por causa da bomba atômica: o Monumento à Paz das Crianças, que fica no Parque da Paz em Hiroshima, e que no dia seis de agosto, pessoas de todo mundo enviam mil tsuru para ser colocado perto deste monumento, desejando a Paz.

As peças, para mim, são pontos fortes da história de Sadako.

FOTOS DE JOSÉ AMARAL